Bem-Vindos ao Novo Site do Visite Urucânia!
Clique aqui para ouvir o texto

Calendário

.

Dia Nacional do Livro Infantil – Uma Homenagem à Monteiro Lobato

15.661 visitas

Nascido na cidade de Taubaté, interior de São Paulo,em 18 de abril de 1882, José Bento Monteiro Lobato dedicou a maior parte de sua vida aos livros.  Sendo considerado um dos maiores autores da literatura infantil, escreveu também livros didáticos no campo da Matemática, História, Ciências e Geografia, demonstrando que era possível aprender através da brincadeira.

Filho de fazendeiros, muitas de suas obras fazem referência à vida no campo. O Sítio do Picapau Amarelo (1920) é considerado sua criação mais famosa. Nela, vários personagens se destacam como Tia Anastácia, com suas crenças e superstições; Tio Barnabé, com seus “causos” e estórias; Cuca, a jacaré fêmea, com seus encantos e magias; Emília, a boneca falante; Visconde de Sabugosa, uma espiga de milho que pensa e fala como gente grande; Pedrinho, inspirado em Lobato quando criança, repetindo suas aventuras e peripécias; além outros personagens encantadores.

Com uma criatividade fora do comum, Monteiro Lobato escreveu também: “A menina do narizinho arrebitado” (1920), “Jeca Tatuzinho” (1924), “Caçadas de Pedrinho” (1933), “Emília no país da gramática” (1934), “Aritmética da Emília” (1935), “Geografia de Dona Benta”, “História das Invenções” (1935), “A reforma da natureza” (1941), ”Histórias diversas” (1947), dentre tantas outras.

Além dos livros infantis, fábulas, contos e crônicas escreveu obras literárias com a temática voltada para adultos como: “Urupês” (1918), “O macaco que se fez homem” (1923), “O escândalo do petróleo e Ferro” (1936), “Zé Brasil” (1947),

Mas infelizmente, Monteiro Lobato, só é lembrado pela maioria, como mais uma data comemorativa do nosso calendário. Toda sua intelectualidade e seu vasto acervo de inigualável valor são vistos por muitos, apenas como meras histórias. Esquece-se que por trás de muitas de suas obras, o autor tinha um objetivo definido: despertar nos leitores uma nova concepção do mundo, criando em cada um de nós, um olhar crítico diante da sociedade e não somente mais uma leitura automatizada.

Monteiro Lobato faleceu em 4 de Julho de 1948. Em 8 de Janeiro de 2002, foi decretada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, a Lei 10.402/02 onde instituiu o Dia Nacional do Livro Infantil, a ser comemorado, anualmente, no dia 18 de abril, data natalícia do escritor.

Os dois Burrinhos

Muito lampeiros dois burrinhos de tropa seguiam trotando pela estrada além. O da frente conduzia bruacas de ouro em pó; e o de trás, simples sacos de farelo. Embora burros da mesma igualha, não queria ser o primeiro que o segundo lhe caminhasse ao lado.

– Alto lá! – dizia ele – não se emparelhe comigo, que quem carrega ouro não é do mesmo naipe de quem conduz feno. Guarde cinco passos de distância e caminhe respeitoso como se fosse um pajem.

O burrinho do farelo submetia-se e lá trotava, de orelhas murchas, roendo-se de inveja do fidalgo…

De repente…

Osh! Oah! São ladrões da montanha que surgem de trás de um tronco e agarram os burrinhos pelos cabrestos.

Examinam primeiramente a carga do burro humilde e, – Farelo! – exclamaram desapontados – o demo o leve! Vejamos se há coisa de mais valor no da frente.

– Ouro, ouro! – gritam, arregalando os olhos. E atiram-se ao saque.

Mas o burrinho resiste. Desfere coices e dispara pelo campo afora. Os ladrões correm atrás, cercam-no e lhe dão em cima, de pau e pedra. Afinal saqueiam-no.

Terminada a festa, o burrinho do ouro, mais morto que vivo e tão surrado que nem suster-se em pé podia, reclama o auxílio do outro que muito fresco da vida tosava o capim sossegadamente.

– Socorro, amigo! Venha acudir-me que estou descadeirado…

O burrinho do farelo respondeu zombeteiramente:

– Mas poderei por acaso aproximar-me de Vossa Excelência?

– Como não? Minha fidalguia estava dentro da bruaca e lá se foi nas mãos daqueles patifes. Sem as bruacas de ouro no lombo, sou uma pobre besta igual a você…

– Bem sei. Você é como certos grandes homens do mundo que só valem pelo cargo que ocupam. No fundo, simples bestas de carga, eu, tu, eles…

E ajudou-o a regressar para casa, decorando, para uso próprio, a lição que ardia no lombo do vaidoso.

(Conto de Monteiro Lobato)

 

 

A Casa da Gritaria

-Que barulhada! – Exclamou Emília, ao aproximar-se da casa das Interjeições*.

–Será algum viveiro de papagaios?

-São elas. Aquilo lá dentro parece um hospício, porque as Interjeições não passam de gritinhos, disse o Verbo Ser.

-Gritos de quê?

-De tudo. Gritos de Dor, de Alegria, de Aplauso…

A casa das Interjeições parecia mesmo um viveiro de papagaios. Assim que entrou, Emília viu passarem correndo dois gemidinhos de Dor, as Interjeições ai! e ui! Logo em seguida viu, a dar pulos, três gritinhos de Alegria::- ah! oh! eh! Depois viu três de nariz comprido, as Interjeições de Desejo: – tomara! oh! oxalá!

E viu três num entusiasmo doido – as interjeições de Animação: – eia! sus!  coragem!

E viu quatro de Aplauso, batendo palmas:- viva!  bravo!  bem!  apoiado!

E viu mais quatro com caras de horror e nojo, que eram as Interjeições de Aversão:- ih! chi! irra! apre!

E viu algumas de Apelo, chamando desesperadamente alguém: – olá! psiu! alô!

E viu duas de Silêncio, encolhidinhas, de dedo na boca: –psiu! silêncio!

E viu uma bem velhinha, de Admiração: – caspite!

– Que baitaquinhas! – comentou Emília, tapando os ouvidos. -Já estou tonta, tonta…

*Interjeição: Palavra que expressa emoções, sentimentos ou pensamentos súbitos.

Texto retirado do livro Emília no país da Gramática – Monteiro Lobato

 

 

O orgulhoso

Era um jequitibá enorme, o mais importante da floresta. Mas orgulhoso e gabola. Fazia pouco das árvores menores e ria-se com desprezo das plantinhas humildes. Vendo a seus pés uma tabua disse:

— Que triste vida levas, tão pequenina, sempre à beira d’água, vivendo entre saracuras e rãs… Qualquer ventinho te dobra. Um tisio que pouse em tua haste já te verga que nem bodoque. Que diferença entre nós!A minha copada chega às nuvens e as minhas folhas tapam o sol. Quando ronca a tempestade, rio-me dos ventos e divirto-me cá do alto a ver os teus apuros.

— Muito obrigada! Respondeu a tabua ironicamente. Mas fique sabendo que não me queixo e cá à beira d’água vou vivendo como posso. Se o vento me dobra, em compensação não me quebra e, cessado o temporal, ergo-me direitinha como antes. Você, entretanto…

— Eu, que?

— Você jequitibá tem resistido aos vendavais de até aqui; mas resistirá sempre? Não revirará um dia de pernas para o ar?

— Rio-me dos ventos como rio-me de ti, murmurou com ar de desprezo a orgulhosa árvore.

Meses depois, na estação das chuvas, sobreveio certa noite uma tremenda tempestade. Raios coriscavam um atrás do outro e o ribombo dos trovões estremecia a terra. O vento infernal foi destruindo tudo quanto se opunha à sua passagem.

A tabua, apavorada, fechou os olhos e curvou-se rente ao chão. E ficou assim encolhidinha até que o furor dos elementos se acalmasse e uma fresca manhã de céu limpo sucedesse aquela noite de horrores. Ergueu, então, a haste flexível e pode ver os estragos da tormenta. Inúmeras árvores por terra, despedaçadas, e entre as vítimas o jequitibá orgulhoso, com a raizana colossal à mostra…

E aí, você prefere ser o Jequitibá ou a tabua?
Eu escolho a tabua.
Mas conheço muitos jequitibás…

(Fábula de Monteiro Lobato)

1 comentário para Dia Nacional do Livro Infantil – Uma Homenagem à Monteiro Lobato

  1. claro que eu adorei todas as literaturas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Click to listen highlighted text!