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Nossa Gente

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José Mayrink de Souza

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Juquinha de Júlio

José Mayrink de Souza (Juquinha de Júlio) nasceu na cidade de Jequeri no dia 27 de Abril de 1906. Filho de Júlio de Assis Mayrink e Anna de Souza Mayrink, além de Juquinha, como era carinhosamente chamado, tiveram mais 7 filhos. Juquinha cursou o Ensino Primário onde foi aluno de Dona Maria Amélia Castro, filha do Professor Manuel Rufino. Por ser uma época difícil, o ensino também enfrentava dificuldades. Um exemplo disso era que os alunos não possuíam cadernos e sim lousas pequenas e individuais onde cada um escrevia e apagava enquanto aprendia a lição, mas mesmo diante dessa situação, a vontade de estudar dos alunos e de ensinar da professora superava todos os obstáculos.

Passou sua infância e adolescência com seus pais e irmãos em uma pequena propriedade rural nas proximidades de Urucânia, denominada Vargem Alegre onde começou a namorar em 1939 sua prima primeira Ephigênia Mayrink Tompe, filha de José Estevão Tompe e Victorina de Assis Tompe. Casaram-se em 11 de Junho de 1940 na casa onde Ephigênia residia por ela estar de luto devido à morte de seu pai, sendo seu casamento feito pelo Padre José Henrique de Souza Carvalho e Padre Pedro, vestida de noiva somente para casar, pois naquela época o luto era por um período de 1 ano. Deste casamento nasceram 6 filhos: Marina, Mauro (Loló), Mouzart, Marília (Loloca), Marly e Manoel Mayrink.

Ephigênia, além de uma ótima esposa, mãe e dona de casa, usou o seu talento de bordadeira para ajudar Juquinha nas despesas do lar. Bordava à maquina para o enxoval das noivas e todos aqueles que se interessavam pelo seu artesanato.

Ferreiro talentoso, Juquinha moldava o ferro utilizando o fole, carvão vegetal (de braúna) e bigorna (um apoio para martelar o ferro em brasa) de onde criava as formas de acordo com a necessidade dos seus clientes. Por se tratar de uma pessoa de muito bom coração, muitas vezes ficando sem jeito de cobrar pelo serviço prestado, acabava recebendo pelo seu trabalho produtos que seus clientes produziam como: feijão, ovos, frangos, verduras e frutas. O que só o tornava um ser humano ainda mais nobre.

Por possuir muitas habilidades, consertava garruchas e espingardas das pessoas da região, além de confeccionar canecos aproveitando como matéria-prima, latas de produtos em conservas. Um visionário da reciclagem nos idos de 1940.

Fazia qualquer tipo de solda, entre elas, de utensílios domésticos como panelas, tabuleiros (feitos a partir de latas de óleo), carretilhas para cortar pasteis, regadores e o que mais fosse preciso. Amolava facas e tesouras, consertava esporas, emendava e consertava correntes e eixos para carros de boi. Sem contar que usava sua criatividade para fabricar lamparinas para serem utilizadas na falta de energia elétrica e brinquedos para as crianças como pandeiros, bonecos de madeira e vários outros itens.

Na época da Semana Santa, a pedido de Padre Efraim, Juquinha foi responsável pela confecção de capacetes e lanças para a representação dos soldados romanos na procissão de enterro na Sexta-Feira da Paixão, além de matracas para serem usadas ao final do cortejo, confeccionava também as lamparinas para serem colocadas em bambus para iluminar a passagem da procissão nas ruas escuras do Cruzeiro.

Mas suas habilidades não paravam por aí. Com a criação dos poços artesianos, foi responsável pelas bombas que distribuíam a água na cidade. Naquela época, a distribuição de água ocorria em intervalos regulares e era sua responsabilidade acioná-la e direcioná-la para os diferentes locais do município, permanecendo nesta função até sua aposentadoria.

Sua tenda (oficina) era frequentada por muitos amigos que gostavam de conversar, pedir orientação, contar casos, discutir assuntos relacionados à cidade e à vida cotidiana.

Por ser um homem de muita confiança, acabava despertando admiração por parte das pessoas, uma delas foi Padre Antônio Ribeiro Pinto que o admirava muito e se tornaram bons amigos. Sempre que possível, visitava a casa do Padre para conversarem e quando necessário consertar torneiras e encanamentos da casa e da Igreja.

Certa vez, Padre Antônio descobriu que Juquinha tinha vontade de se mudar para Ponte Nova para que seus filhos tivessem a oportunidade de estudar e terem um futuro melhor. Padre Antônio, no entanto, aconselhou-o dizendo: “Não saia desta cidade, pois aqui está o futuro de seus filhos”. E assim aconteceu: Em 1968 quatro de seus filhos concluíram seus estudos e em 18 de Dezembro de 1971, além de comemorar o aniversário de sua esposa, Dona Ephigênia, Juquinha teve a honra e a felicidade de assistir a formatura dos 4 filhos no Magistério. Durante o evento, ocorrido no antigo Salão Paroquial, hoje Centro Cultural Padre Efraim Solano Rocha, conduziu um a um ao palco onde receberam os diplomas de formatura, sendo aplaudido de pé por todos os presentes.

Assim, José Mayrink de Souza, além de ser um ótimo pai e marido dedicado, passou sua vida trabalhando como ferreiro, servindo à população e sendo amigo de todos os que, por ventura, quisessem conversar e pedir conselhos. Estudou música e participou da banda da cidade tocando bombardino, mais um dos seus inúmeros dons.

Foi um homem sempre alegre, trabalhador e estava continuamente com um sorriso no rosto. Um exemplo disso, foi quando ao ser convidado por uma grande amiga para abrir uma “caderneta de poupança”na primeira agência da cidade, respondeu sorridente dizendo: “como posso abrir uma caderneta de poupança se não estou dando conta da caderneta de encher a pança?”. Provando que, mesmo nas diversidades, não se desesperava com as situações que surgiam, provando o quanto era um homem sábio.

Faleceu em 25 de Abril de 1982 sem deixar inimigos, prova disso foi o número de pessoas que compareceram em seu enterro para se despedirem.

Sua famosa tenda, que funcionava na parte de baixo de sua casa localizada à Rua Professor Manuel Rufino, foi reformada e permanece fechada para a preservação da sua memória e daqueles que por ali passaram.

Devido ao grande homem que foi a Prefeitura Municipal de Urucânia o homenageou colocando seu nome em uma das ruas do município, localizada no Bairro Paulo Giardini.

Dessa forma, sua educação, honestidade, humildade, gentileza, bondade e caráter foram e ainda são exemplos para seus filhos, netos, bisnetos, familiares e amigos deixando muita saudade e várias histórias para contar.

 

José Mayrink de Souza

* 27 de Abril de 1906
+ 25 de Abril de 1982

Colaboração
Texto: Rita de Cássia Araújo
Colaboração: Marina Mayrink
                         Marly Mayrink de Araújo
                         Malvina Cohen

20 comentários para José Mayrink de Souza

  1. Merecida esta biografia aqui deste cidadão, absolutamente humano e poeta. Sempre me refiro a Seu Juquinha Ferreiro como poeta, porque desde pequeno ia à sua oficina levar espingarda para ele conserta pra meu pai – Sebastião soldado – (um otorrino de espingarda!) e ficava fascinado com a flores que ele criava das folhas de flandres. Adora conversar com ele, tenho para mim que Juquinha Ferreiro foi, de fato, meu primeiro mestre de poesia. Tenho o maior carinho pela memória dele, muita saudade. De suas filhas fui aluno – Marina sobretudo e de Manoel, amigo. Ele sempre aparece nos meus textos. Estou muito feliz por esta fonte biográfica muito relevante para a preservação deste patrimônio cultura e da própria memória histórica de Urucânia. Parabéns pelo texto, por esta página a serviço da memória histórica de nossa cidade e de nossa gente. Abraço. Nilo

  2. Fiquei impressionada com esta linda história de vida. Meu avô morreu quando eu tinha menos de 3 anos, tenho apenas uma foto com ele. Meu pai evitava falar porque ficava muito triste pela perda do pai. Muitas coisas eu nem sequer sabia, e o pouco que sabia me foi contado pela minha avó materna! Estou emocionada com tudo isso, a saudade aperta o coração. Só posso agradecer pela iniciativa e me sentir orgulhosa por seu sua neta. E por ter tido a oportunidade de ter o pai que tive, o homem mais importante da minha vida e aquele que mais admiro e de quem sinto mais falta na vida: Mouzart Mayrink, meu papai tão querido. Abraços a todos…

  3. Saudades eternas de Juquinha de Julio e vovó Ephigênia!
    Era a casa que eu mais frenquentava em Urucânia quando era criança.
    Fico muito emocionada com essa homenagem.

  4. Muitos anos se passaram, mas lembro-me com muita saudade e carinho do homem mais importante da minha vida, do homem que me ensinou a brincar, sorrir, sonhar, me educou, me amou e lutou, lutou muito, e com muito sacrifício para que eu e meus irmãos pudéssemos ser o que hoje somos. Saudade Eterna pai!

  5. Jáder Filho comentou em 22/03/2013

    Juquinha de Júlio, que pra mim é Vovô Juquinha, realmente foi e continua sendo um exemplo de educação, honestidade, humildade, gentileza, bondade e caráter. Por eu ser o neto mais velho, tive o prazer de conviver com ele por sete anos. Me recordo dele praticamente todos os dias, pois hoje faço uso das mesmas ferramentas que ele usou em sua oficina por tantos e tantos anos.
    Gostaria de parabenizar a todos que ajudaram na confecção dessa linda biografia.

  6. Parabéns ao Celsinho por lembrar deste homem que foi para mim um Grande amigo. Assim como foi amigo de meu pai. Eu recebi vários conselhos dele, pois sempre conversávamos muito. Naturalmente, ele está junto de Deus agora, pois ele foi um homem muito especial não só para mim, mas para todos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo .

  7. Nós moravamos em frente a sua casa (dele). Nunca tivemos qualquer desagrado, ao contrário, erámos como irmãos. Inclusive um de seus irmãos foi casado com minha irmã.( ELZEÁRIO…)

  8. Agradeço aos que, gentilmente se dedicaram em escrever sobre meu avô. Foi um homem muito especial que com sua simplicidade e sabedoria de vida, conquistou muitos amigos. Todos os relatos postados contribuíram ainda mais para que sua biografia ficasse mais completa.
    Obrigada a todos pela demonstração de carinho.
    Um grande abraço!!!

  9. Meu pai foi um homem muito especial. Além de ter sido um grande amigo dos filhos, foi também um ótimo marido para minha mãe.. Transmitiu seus valores de forma correta, sempre nos ensinando o caminho certo da vida.
    Ele e minha mãe construíram juntos o verdadeiro exemplo de família.
    Saudades eternas!!!

  10. Ritinha, parabéns pelo texto, lembrei-me que quando criança levava lata de goiabada para ele fazer pandeiro. Mesmo porque eu gostava muito de parar lá, para ver as coisas que ele fazia.
    Bons tempos aqueles, época em que a essência da família era bem diferente dos tempos modernos.

  11. O pouco que conheci do Sr. Juquinha aprendi admirá-lo pelos seus valores. Era um homem humilde e de grande coração. Me lembro das vezes que ia até sua tenda levar a máquina de costura manual de minha mãe, Argemira, para consertar e quando voltava para buscar sempre levava para ele um pequeno agrado que ele gostava muito: quiabo. Ele sempre recebia com um grande sorriso.
    Sr. Juquinha foi um homem muito querido por todos, não conheço ninguém que fale o contrário. Deixou saudades em todos que puderam conhecer e conviver com ele.

  12. Quero agradecer à você, Juquinha, pelo bom amigo, meu primo, meu tio, meu segundo pai. Você foi o verdadeiro semeador do bem no seu caminho. Que as lembranças da sua vida exemplar fiquem para todos nós como HERANÇA imperecível. Você foi para mim uma riqueza sem preço.

  13. Parabéns pela iniciativa. São gestos como este que mantém viva nossas tradições e cultura.

  14. Gente esse é meu avô !!!! Pai do meu pai !!!
    Nossa ele faleceu e faltava somente 5 meses para eu nascer.
    Queria muito ter conhecido …..
    porém ficou na saudade !!!!

    Obrigada a todos pela homenagem !!!

  15. Fiquei muito emocionada com a história do Sr. Juquinha de Júlio contada por sua neta Rita. Conheci muito o casal e era amiga de seus filhos. A Marly era praticamente nossa irmã e a Dona Ephigênia era considerada uma querida vovó por minha irmã(sobrinha) Sandra. Como é gostoso relembrar aqueles tempos! Minha mãe guardava as latas de achocolatados e azeites para o Sr. Juquinha fazer canequinhas onde tomávamos café-com-leite. Era muito bom. O leite ficava mais gostoso. Lendo sua história pude perceber, através de suas palavras, sua inteligência e sapiência. É por isso que seus filhos saíram tão inteligentes! Foi muito amigo de meus pais e, principalmente, de minha mãe. Acho até que eram parentes distantes. Ele foi exemplo de caráter e persistência. Criou os filhos com muitas dificuldades e todos se deram muito bem na vida. Exemplo que as novas gerações devem seguir.

  16. Realmente as pessoas antigas como Sr. Juquinha, meus avós e outros tinham mais amizade, respeito, sem contar a sabedoria de viver, isso esta acabando em Urucania. Era raro não conhecer uma pessoa na rua, hoje quase não conheço ninguém.

    Parabéns pelo texto, perfeito.

    Att., Thiago Giardini

  17. Rudson comentou em 01/08/2012

    É sempre bom conhecer pessoas que fizeram algo pela nossa sociedade.
    Parabéns à equipe colaboradora.

  18. Infelizmente não tive a oportunidade de conviver com meu avô querido, pois faleceu meses antes que eu nascesse. Mas sua história de vida me faz ter muito orgulho de ser neta deste homem tão sábio. Um pai e marido exemplar que, mesmo com todas as dificuldades, conseguiu junto com vovó Ephigênia educar seus filhos, não somente para a escola, mas para a vida. Estruturou a família de forma honesta, baseada no caráter, na ética e em uma união incondicional. Mesmo após a sua morte, o seu legado permanece sendo passado de geração para geração.

    Hoje nossa família é a concretização de todo seu esforço. É exemplo de união, de bondade, humildade e bom coração. Exatamente como ele foi. Queria ter podido conviver com ele, conversar e aproveitar todos os mimos que, com certeza, ele não pouparia.

    Mas tive a honra de poder eternizá-lo através desta biografia que só me fez admirá-lo ainda mais diante das histórias que ouvia desde minha infância.
    A você Vovô, minha eterna gratidão pelo exemplo de caráter e dedicação.

  19. QUE SAUDADES DO Sr. JUQUINHA!
    QUANTAS VEZES LEVEI CONCHAS, ESPUMADEIRAS… PARA QUE ELE SOLDASSE.(E FICAVA PERFEITO)
    CANECOS DE VÁRIOS TAMANHOS, FORAM MUITOS QUE ELE FEZ PRA MINHA MÃE.(SAUDADES DEMAIS!!!!)

    TIVE A FELICIDADE DE CONVIVER COM ESSE GRANDE HOMEM E COM A D. EFHIGÊNIA (GRANDE AMIGA DA TIA SINHÁ DE TOTÔNIO ROSSI) QUE SEMPRE ME PRESENTEAVA COM ROUPAS BORDADAS POR ELA.

    PARABÉNS AOS AUTORES DO TEXTO. ESTÁ TÃO VERDADEIRO QUE ME SENTI AO LADO DELES E DE REPENTE…
    NÃO POSSO NEGAR QUE ESSE MOMENTO DE VOLTA AO PASSADO ME ARRANCOU LÁGRIMAS.

  20. Que lindo texto! Me fez imaginar o grande homem que foi o Sr. Juquinha. É uma pena que os jovens de hoje não se interessem pelos feitos dos antigos, dando continuidade a trabalhos tão nobres. Parabéns à equipe que pesquisou e escreveu a biografia.

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