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Tiradentes: Um Homem e Muitas Versões

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Considerado pela Coroa Portuguesa como o cabeça da Conjuração Mineira, morto por enforcamento, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, tornou-se herói nacional e uma das figuras mais polêmicas da nossa história. Muito se tem falado dele, mas sabe-se pouco de sua vida.

Pela intensidade e pela trama em que se envolveu nos últimos anos de vida, nos foi deixado um envolvente material que nos permite não só polemizar, como discutir esta figura, até certo ponto enigmática da nossa história.

Segundo o escritor francês Balzac, há duas histórias: a Oficial, que é mentirosa e a Verdadeira, que é secreta. Com a abertura democrática de nosso país, cada vez mais vamos sabendo de coisas que são diferentes daquelas aprendidas na escola. Uma delas é a respeito de Tiradentes.

Poucos sabem que Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, era maçom, bem como quase a totalidade dos líderes do movimento de independência. O movimento de independência tinha como caráter principal três províncias do Brasil, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, sendo que o resto do país deveria acompanhar as três províncias citadas. A Inconfidência Mineira começou em Vila Rica,sendo um dos mais importantes movimentos sociais da História do Brasil. Significou a luta do povo brasileiro pela liberdade e contra a opressão do governo português no período colonial.

No século XVIII em pleno ciclo do ouro o Marques de Pombal impôs uma cobrança sobre o ouro de 1/5 sobre o peso do mesmo que deveria ser mandado à Portugal por um prazo de 10 anos consecutivos. Como sempre no Brasil, tudo que é definitivo é provisório e o que é provisório é definitivo. Assim a cobrança do ouro durou 60 anos.

O que houve foi que as minas de ouro na região de Minas Gerais esgotaram-se e os mineiros não tinham mais como pagar o quinto do imposto. Para piorar, como o ouro estava diminuindo, Portugal estabeleceu uma cota fixa, devendo ser arrecadado de qualquer maneira 1.500 kg de ouro por ano, não importando a quantidade de produção.

Nesta época, Portugal criou a Derrama. Esta funcionava da seguinte forma: cada região de exploração de ouro deveria pagar 100 arrobas de ouro (1500 quilos) por ano para a metrópole. Quando a região não conseguia cumprir estas exigências, soldados da coroa entravam nas casas das famílias para retirarem os pertences até completar o valor devido. Estas atitudes foram provocando uma insatisfação muito grande no povo, principalmente, nos fazendeiros rurais e donos de minas que queriam pagar menos impostos, mas possuirem maior participação na vida política do país.

Alguns membros da elite brasileira (intelectuais, fazendeiros, militares e donos de minas), influenciados pela ideias de liberdade que vinham do iluminismo europeu, começaram a se reunir para buscar uma solução definitiva para o problema: A Conquista da Independência do Brasil.

O grupo, liderado por Tiradentes era formado pelos poetas Tomas Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, o dono de mina Inácio de Alvarenga, o padre Rolim, entre outros representantes da elite mineira. O objetivo do grupo era conquistar a liberdade definitiva e implantar o sistema de governo republicano em nosso país. Sobre a questão da escravidão, o grupo não possuía uma posição definida. Estes inconfidentes chegaram a definir até mesmo uma nova bandeira para o Brasil. Ela seria composta por um triangulo vermelho num fundo branco, com a inscrição em latim: Libertas Quae Sera Tamen (Liberdade ainda que Tardia). Os inconfidentes haviam marcado o dia do movimento para uma data em que a derrama seria executada. Desta forma, poderiam contar com o apoio de parte da população que estaria revoltada. Porém, um dos inconfidentes, Joaquim Silvério dos Reis, delatou o movimento para as autoridades portuguesas, em troca do perdão de suas dívidas com a coroa. Todos os inconfidentes foram presos, enviados para a capital (Rio de Janeiro) e acusados pelo crime de infidelidade ao rei. Alguns inconfidentes ganharam como punição o degredo para a África
e outros uma pena de prisão. Porém, Tiradentes, após assumir a liderança do movimento, foi condenado à forca em praça pública.

Embora fracassada, podemos considerar a Inconfidência Mineira como um exemplo valoroso da luta dos brasileiros pela independência, pela liberdade e contra um governo que tratava sua colônia com violência, autoritarismo, ganância e falta de respeito.

O historiador José Murilo de Carvalho, em seu livro, A Formação das Almas, nos mostra a busca republicana por um herói que representasse um mito de origem.

Este foi Tiradentes, herói místico, assumiu explicitamente a postura de mártir, identificou abertamente com Cristo. O cerimonial do enforcamento, o cadafalso, a forca erguida à altura incomum, os soldados em volta, a multidão expectante. Tudo contribuía para aproximar os dois eventos e as duas figuras, a crucificação e o enforcamento, Cristo e Tiradentes. Talvez esteja aí um dos principais êxitos de Tiradentes. Era o mártir ideal e imaculado na brancura de sua túnica de condenado. Ele foi vítima de um sonho, de um ideal, dos “loucos desejos de uma tão sonhada liberdade”. Foi vítima não só do governo português e de seus representantes, mas até mesmo e seus amigos. Vítima da traição de José Silvério, amigo pessoal, o novo Judas. E vítima também dos outros companheiros da conspiração, que, como novos Pedros, se acovardaram, procuraram lançar sobre ele toda a culpa. Culpa que ele assumiu de boa vontade. Congratulou-se com os companheiros quando foi comunicada a suspensão da sentença de morte, satisfeito por ir sozinho ao cadafalso.

Explicitamente, como Cristo, a quem quis imitar na nudez e no perdão ao carrasco,”lhe beijou os pés”, referência clara ao perdão de Cristo aos seus algozes. Vaporosa e diáfana figura do mártir da Inconfidência, pálida e aureolada, serena e doce como a de Jesus Nazareno. Incorporou as culpas, as dores e os sonhos dos companheiros e dos compatriotas. Operava pelo sacrifício, no domínio místico, a salvação que não pudera operar no domínio cívico.

Na figura de Tiradentes todos podiam identificar-se, ele operava a unidade mística dos cidadãos, o sentimento de participação, de união em torno de um ideal, fosse ele de liberdade, de independência ou a república. Ligava a república à independência e a projetava para o ideal de crescente liberdade futura: “A liberdade ainda que tardia”.

Tiradentes não usava nem barba e nem bigode. Esta imitação de Cristo foi feita há tempos e sacramentada através da Lei Federal 4897 de 1966 pelo presidente Castelo Branco, quando foi definida a imagem com barba e cabelos longos assim como Jesus Cristo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Cia da Letras, 1990.

Fique por dentro:

 Maçonaria: A irmandade dos maçons é a maior organização do mundo. Muito tem sido escrito a respeito. Todavia, para muitos, a Maçonaria ainda permanece um mistério. A Maçonaria é uma associação, sem fins lucrativos, cuja origem se perde na antiguidade e que atualmente se faz formar por mais de onze milhões de membros em todo o mundo. É um sistema de conduta moral onde se aprende a controlar suas paixões e vícios bem como a praticar a fraternidade. Somente são admitidos na Maçonaria homens livres e de bons costumes, sem distinção de raça, religião, ideologia política ou posição social. Exige-se do candidato, unicamente, que possua espírito filantrópico e o firme propósito de buscar sempre o auto-aperfeiçoamento.

Está baseada na crença em um Ser Superior, Deus, a quem denomina “Grande Arquiteto do Universo”, como princípio e causa de todas as coisas. Apresenta-se rígida em seus princípios, mas é tolerante com as pessoas. Ensina a respeitar as opiniões dos outros, mesmo quando contrariam às próprias.

Cadafalso: Tablado erguido em lugar público para nele se exporem ou se executarem os condenados. Forca. Subir no cadafalso, sofrer a pena de morte.

Algozes: Carrasco. Pessoa desumana, cruel. Torturador.

Mártir: Aquele que preferiu morrer a renunciar à fé, à sua crença. Aquele que sofre muito.

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